Estudo escatológico · Daniel 9.24-27
As setenta semanas cumpridas em Yeshua — e a verdade sobre o arrebatamento, o Anticristo e o sinal da besta
Ao leitor
Uma conversa entre irmãos
Se você cresceu numa igreja evangélica — talvez numa Assembleia de Deus, talvez numa Batista, talvez numa das muitas igrejas pentecostais que se espalharam pelo Brasil —, é bem provável que já tenha ouvido uma pregação assim:
“Irmãos, a qualquer momento a trombeta vai tocar. Num piscar de olhos a Igreja será arrebatada. Os carros vão ficar sem motorista, os aviões sem piloto, as roupas vazias sobre as camas. E quem ficar vai enfrentar sete anos de Grande Tribulação debaixo do governo do Anticristo, que vai fazer um acordo de paz com Israel, reconstruir o templo e depois colocar um chip na mão de todo mundo. Quem não aceitar o chip não poderá comprar nem vender.”
Talvez você tenha assistido a filmes sobre isso quando era jovem. Talvez tenha acordado de madrugada, com o coração disparado, e ido até o quarto dos pais para conferir se eles ainda estavam lá. Muitos irmãos contam experiências assim. E é importante dizer, logo no começo deste livro: quem pregava essas coisas, na grande maioria das vezes, pregava com sinceridade. Queria ver as almas salvas. Queria a Igreja acordada, vigilante, pronta para encontrar o Senhor. Esse zelo é bonito, e nós o respeitamos.
Mas zelo não é o mesmo que exatidão. Os judeus de Bereia receberam a mensagem de Paulo “com toda a avidez”, e mesmo assim foram conferir nas Escrituras, todos os dias, se as coisas eram de fato como ele dizia (At 17.11). E a Bíblia os chama de nobres por causa disso. Este livro é um convite para fazermos a mesma coisa: abrir a Bíblia e conferir, com calma, se aquilo que aprendemos sobre o fim dos tempos está realmente escrito lá.
Vamos fazer isso a partir de uma das profecias mais extraordinárias de toda a Escritura: as setenta semanas de Daniel, que estão no capítulo 9 do livro do profeta. Essa profecia é a peça central de todo o esquema que você ouviu nas pregações. É dela que vêm os “sete anos de tribulação”, o “acordo do Anticristo com Israel” e, indiretamente, a ideia de que a Igreja precisa sair da terra antes que esses sete anos comecem. Se essa peça estiver sendo lida de forma errada, todo o resto desmorona.
E vamos mostrar — com calma, capítulo por capítulo, sem pressa e sem desprezo por ninguém — que a leitura correta é outra. Que as setenta semanas já se cumpriram, e se cumpriram de forma maravilhosa, no ministério, na morte e na ressurreição de Yeshua, o Messias, a quem você talvez esteja acostumado a chamar de Jesus. E que essa leitura, longe de nos deixar sem esperança, nos dá uma esperança ainda mais firme.
Ao longo do livro você vai encontrar algumas palavras em hebraico e em grego, as línguas em que a Bíblia foi escrita. Não se assuste: todas serão explicadas. Elas estão ali porque, muitas vezes, uma única palavra do original resolve uma dúvida que as traduções deixam em aberto.
Também vai perceber que escrevemos D_us em vez de “Deus” e usamos o nome Yeshua, que é como o Messias era chamado pela sua família e pelos seus discípulos. São costumes da nossa congregação, por reverência ao Nome. Onde você estiver acostumado a ler “Jesus”, leia Yeshua: é a mesma pessoa, o mesmo Salvador.
Uma última palavra antes de começar. Nossa congregação é judaico-messiânica. Isso quer dizer que cremos em Yeshua como o Messias prometido a Israel e Salvador do mundo, e que também procuramos viver segundo a Torá — a instrução que D_us deu no Sinai —, guardando o Shabat, as festas bíblicas e os mandamentos, não para sermos salvos, mas porque fomos salvos. Você vai perceber que isso muda a maneira como lemos as profecias. Em vários pontos, vamos mostrar como a Torá é a chave que abre textos que, sem ela, parecem enigmas.
Pegue sua Bíblia. Vamos juntos.
Capítulo 1
Como ler uma profecia
“Nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação particular.”2 Pedro 1.20
Antes de entrar em Daniel, precisamos combinar algumas regras. Quando o assunto é profecia, é muito fácil deixar a imaginação correr. Cada geração olha para os acontecimentos do seu tempo e tenta encaixá-los na Bíblia. Nos anos 1940, muitos pregadores tinham certeza de que Mussolini era o Anticristo. Depois foi Hitler, depois Stálin, depois Kissinger, depois Gorbachev — aquele da mancha na testa! Depois vieram o código de barras, o cartão de crédito, o chip, a vacina, o Pix. Em cada época havia livros, fitas e vídeos “provando” que agora, sim, estava tudo se cumprindo.
Nenhuma dessas previsões se cumpriu. E isso deveria nos ensinar alguma coisa. Quando começamos pelo jornal e depois procuramos um versículo que combine, fazemos o que alguns chamam, com um pouco de ironia, de “exegese de jornal”. O jornal manda, e a Bíblia obedece. O caminho certo é o inverso: começamos pela Bíblia, entendemos o que ela diz no seu contexto, e só depois olhamos para a história para ver onde aquilo se cumpriu.
Regra 1: A Bíblia explica a Bíblia
O melhor intérprete de uma profecia é o próprio D_us, que a inspirou. Por isso, quando uma profecia do Tanakh — o que muitos chamam de Antigo Testamento — é citada ou explicada pelos escritores da Brit Hadashá — o Novo Testamento —, essa explicação tem a palavra final. Se Yeshua diz que uma profecia se cumpriu nos dias dele, não temos o direito de dizer que ela ainda vai se cumprir daqui a dois mil anos.
Regra 2: O contexto manda
Daniel não escreveu para nós, brasileiros do século XXI, pensando em chips e satélites. Ele escreveu na Babilônia, no século VI antes de Cristo, orando pela sua cidade destruída e pelo seu povo exilado. A primeira pergunta que devemos fazer é: o que essa mensagem significava para Daniel? Só depois podemos perguntar o que ela significa para nós.
Regra 3: O centro de toda profecia é o Messias
Depois de ressuscitar, Yeshua caminhou com dois discípulos até Emaús e, “começando por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes o que dele se achava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). Mais tarde disse aos apóstolos que era necessário se cumprir tudo o que estava escrito a seu respeito “na Torá de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44). O testemunho de Yeshua, diz o Apocalipse, “é o espírito da profecia” (Ap 19.10).
Mas é preciso entender bem o que significa “cumprir-se” aqui. Yeshua falou do que estava escrito “a seu respeito”: as profecias sobre o Messias e tudo aquilo que, na Torá, apontava para Ele como sombra — de modo especial, o sistema sacrificial pelo pecado, com seus cordeiros, bodes e o sangue levado ao Santo dos Santos. Isso se cumpriu nele. A Torá, porém, não foi abolida. O próprio Yeshua disse: “Não penseis que vim abolir a Torá ou os Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Até que passem o céu e a terra, nem um i ou um til passará da Torá” (Mt 5.17-18).
O que se cumpriu em Yeshua: as profecias a respeito do Messias e o sistema sacrificial que apontava para o seu sacrifício (Hb 9–10).
O que continua em vigor: a Torá, como instrução de D_us para a vida do seu povo — o Shabat, as festas, os mandamentos.
As adaptações que o próprio Eterno permitiu e anunciou: como a circuncisão do coração, já ordenada na Torá (Dt 10.16; 30.6) e profetizada por Jeremias: “Circuncidai-vos ao Eterno, e tirai os prepúcios do vosso coração” (Jr 4.4). O mesmo profeta anunciou a nova aliança em que D_us diria: “Porei a minha Torá no seu interior e a escreverei no seu coração” (Jr 31.33). A nova aliança não apaga a Torá: ela a grava no coração.
Isso quer dizer que, quando lemos uma profecia, a primeira pergunta não deve ser “onde está o Anticristo aqui?”, mas “onde está o Messias aqui?”. Guarde essa pergunta. Ela vai ser decisiva quando chegarmos ao versículo mais discutido de Daniel 9.
Regra 4: Números bíblicos são contados como números
Quando D_us diz a Abraão que sua descendência seria afligida por quatrocentos anos (Gn 15.13), são quatrocentos anos seguidos. Quando diz a Jeremias que o exílio duraria setenta anos (Jr 25.11), são setenta anos seguidos. Ninguém imagina que D_us contou trinta anos, parou o relógio por alguns séculos e depois contou os quarenta restantes. Se uma profecia tem um número, a forma honesta de lê-la é contá-lo do começo ao fim, a não ser que o próprio texto diga claramente que há uma pausa.
1) A Bíblia explica a Bíblia; a explicação da Brit Hadashá tem a última palavra.
2) Primeiro perguntamos o que o texto significava para quem o recebeu.
3) O centro de toda profecia é o Messias.
4) Números proféticos são contados seguidos, a menos que o texto diga o contrário.
Para conversar em grupo
- Você se lembra de alguma previsão sobre o fim dos tempos que ouviu na igreja e que não se cumpriu? Como se sentiu depois?
- Por que começar pelo jornal e depois buscar um versículo é um caminho perigoso?
- Leia Lucas 24.25-27. O que Yeshua ensina sobre a maneira de ler as profecias?
Capítulo 2
A oração que abriu o céu
“Eu, Daniel, entendi pelos livros o número dos anos de que falara o Eterno ao profeta Jeremias.”Daniel 9.2
Imagine a cena. Daniel já é um homem idoso. Foi levado para a Babilônia ainda adolescente, quase setenta anos antes. Viu reis subirem e caírem. Serviu a Nabucodonosor, sobreviveu à cova dos leões, interpretou sonhos e escritas misteriosas na parede. Agora o grande império babilônico acabou de cair nas mãos dos medos e persas. É o primeiro ano de Dario, o medo.
Daniel está em casa, lendo um rolo. É o livro do profeta Jeremias, que ele considera Escritura sagrada. E ali ele encontra uma promessa que faz seu coração acelerar:
Daniel faz as contas. Setenta anos! O tempo está chegando ao fim. Em breve D_us vai cumprir a promessa e trazer o povo de volta para Jerusalém. Qual é a reação dele? Seria natural esperar festa, ou pelo menos um suspiro de alívio. Mas Daniel faz algo diferente: ele se humilha e se arrepende.
Ele jejua, veste pano de saco, põe cinza sobre a cabeça e começa uma das orações mais comoventes de toda a Bíblia. Não é uma oração de cobrança (“Senhor, cumpre logo o que prometeste!”), mas de confissão:
Em hebraico, a frase começa com quatro verbos que soam como marteladas: חָטָאנוּ וְעָוִינוּ וְהִרְשַׁעְנוּ וּמָרָדְנוּ — chatánu, veavínu, vehirshánu, umarádnu. Qualquer judeu que frequenta a sinagoga reconhece esse estilo: é o vidui, a confissão que é recitada até hoje nas orações de Yom Kipur, o Dia da Expiação. Daniel sabia que o exílio não tinha sido um acidente político. Tinha sido consequência do pecado de Israel, da quebra da aliança e da desobediência à Torá. E ele entendia que não adiantava voltar para a terra se o problema do coração não fosse resolvido.
Guarde isso: a profecia das setenta semanas nasceu de uma teshuvá, de um arrependimento. Não nasceu de curiosidade sobre datas. Nasceu de um homem que queria que o pecado do seu povo fosse tratado.
A hora da oferta da tarde
Enquanto Daniel ainda está orando, chega o anjo Gavriel — o mesmo Gabriel que, séculos depois, anunciaria o nascimento do Messias a Miriam (Maria). E o texto faz questão de marcar a hora exata: ele chegou “no tempo da oferta da tarde” (Dn 9.21).
Por que esse detalhe? Não havia templo na Babilônia; ninguém estava oferecendo sacrifício nenhum. Mas Daniel continuava orando na hora em que, em Jerusalém, o cordeiro da tarde era oferecido. Essa hora era por volta das três da tarde — o que os judeus chamavam de hora nona. Agora pense: em que hora Yeshua morreu na cruz? Os Evangelhos respondem: “por volta da hora nona, Yeshua clamou em alta voz… e entregou o espírito” (Mt 27.46-50).
Antes mesmo de ouvir a profecia, já percebemos o rumo dela. A resposta de D_us a Daniel chega na hora do cordeiro. E a profecia que Gavriel vai trazer termina, precisamente, no Cordeiro.
Daniel pediu setenta; D_us respondeu setenta vezes sete
Daniel pediu pelo fim de setenta anos de exílio. D_us lhe respondeu com um período sete vezes maior: “setenta semanas”, ou, como veremos no próximo capítulo, setenta vezes sete anos. É como se D_us dissesse: “Daniel, você está preocupado com o exílio da Babilônia. Mas eu vou tratar do exílio maior, o exílio do coração humano longe de mim. Vou tratar do pecado na sua raiz.”
Existe aqui um eco de algo que Yeshua ensinaria mais tarde. Quando Pedro perguntou quantas vezes devia perdoar, sugerindo sete, o Mestre respondeu: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.22). Setenta vezes sete é o número do perdão completo. As setenta semanas de Daniel são o calendário do perdão de D_us.
Para conversar em grupo
- Qual foi a reação de Daniel ao descobrir que a profecia de Jeremias estava para se cumprir? O que isso nos ensina?
- Por que é significativo que Gavriel tenha chegado “no tempo da oferta da tarde”?
- Em que sentido as setenta semanas podem ser chamadas de “o calendário do perdão”?
Capítulo 3
O que são “setenta semanas”?
“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade.”Daniel 9.24
Quando lemos “setenta semanas” em português, pensamos logo em semanas de sete dias. Setenta semanas assim dariam um ano e quatro meses. Mas não é isso o que o texto quer dizer, e o hebraico deixa claro.
A palavra usada por Daniel é שָׁבֻעִים — shavuím. Ela vem de sheva, que significa “sete”. Literalmente, shavúa é “um conjunto de sete”, uma “setena”. Pode ser um conjunto de sete dias, mas também pode ser um conjunto de sete anos. Quem decide é o contexto. E o contexto aqui é claríssimo: Daniel estava pensando em anos — os setenta anos de Jeremias. A resposta vem na mesma moeda: setenta conjuntos de sete anos.
Além disso, a Torá já conhecia esse tipo de contagem. A cada sete anos, a terra de Israel devia descansar: era o ano sabático (Lv 25.1-7). E a cada sete conjuntos de sete anos, vinha o Jubileu (Lv 25.8-10). Todo israelita estava acostumado a contar o tempo em “semanas de anos”. Aliás, o livro de Crônicas explica que os setenta anos de exílio aconteceram exatamente porque Israel não havia guardado os anos sabáticos: a terra ficou desolada “até que tivesse gozado os seus sábados” (2Cr 36.21). O exílio foi a Torá cobrando o descanso que havia sido negado à terra.
Setenta semanas = 70 × 7 = 490 anos. É um cálculo simples, e não é invenção de intérpretes modernos. Os próprios sábios judeus, no Seder Olam, uma crônica antiga, também entenderam as semanas de Daniel como semanas de anos. A diferença está em onde começar a contar e onde elas terminam.
Uma palavra que ninguém mais usa
Ainda no versículo 24 há um detalhe precioso. O verbo traduzido por “estão determinadas” é נֶחְתַּךְ — nechtákh. Essa palavra aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica. No hebraico usado mais tarde pelos rabinos, ela significa “cortar, recortar, separar um pedaço”. É como quando você pega uma peça de tecido e corta dela um pedaço de tamanho exato.
D_us, por assim dizer, pegou a grande peça da história humana e recortou dela um pedaço de 490 anos, reservando-o para o seu povo e para a sua cidade. E há outro detalhe: o sujeito, “setenta semanas”, está no plural, mas o verbo está no singular. Em português seria como dizer “setenta semanas está determinado”. O texto trata o período inteiro como um único bloco. Um pedaço recortado, de uma vez só.
Guarde essa imagem. Quando chegarmos à doutrina que separa a última semana e a joga dois mil anos para frente, você vai perceber que ela precisa rasgar esse pedaço de tecido em dois. E o texto não dá licença para isso.
As três partes do bloco
O anjo divide as setenta semanas em três partes:
| Parte | Semanas | Anos | O que acontece |
|---|---|---|---|
| 1ª | 7 | 49 | Jerusalém é reconstruída “em tempos angustiosos”. |
| 2ª | 62 | 434 | O tempo passa até a chegada do Messias, o Príncipe. |
| 3ª | 1 | 7 | O Messias é “cortado”, confirma a aliança e faz cessar os sacrifícios. |
| Total | 70 | 490 | Um único bloco, sem interrupção. |
Repare que a segunda parte termina com a chegada do Messias. Somando as duas primeiras partes, 7 + 62, temos 69 semanas, ou 483 anos, desde o ponto de partida até o Messias. É um relógio preciso. Se descobrirmos quando ele começou a contar, poderemos saber quando o Messias deveria aparecer. E é isso que faremos no capítulo 5.

Figura 1 — As setenta semanas: sete, sessenta e duas e uma, somando 490 anos.
Para conversar em grupo
- Por que a palavra shavúa pode significar tanto sete dias quanto sete anos? O que decide o sentido em Daniel 9?
- Qual a ligação entre os anos sabáticos da Torá e o exílio na Babilônia (2Cr 36.21)?
- O que a imagem do “pedaço de tecido recortado” nos ensina sobre as setenta semanas?
Capítulo 4
Seis promessas que só o Messias poderia cumprir
“Ele se manifestou uma vez por todas, no fim dos tempos, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo.”Hebreus 9.26
Antes de fazer as contas, Gavriel diz para que servem as setenta semanas. O versículo 24 lista seis objetivos. Esse versículo é a chave de toda a profecia, e muita gente passa por ele depressa demais. Vamos lê-lo devagar:
Repare: nenhum desses seis objetivos fala de guerra, de tratado político, de chip, de templo reconstruído ou de um governante mundial. Todos falam de pecado, expiação e justiça. São obras de redenção. São, exatamente, as obras que só o Messias poderia realizar. Vejamos uma por uma.
1. “Fazer cessar a transgressão”
A palavra para transgressão é pésha, que significa rebelião, quebra deliberada de uma aliança. Desde o Éden, a humanidade vive em rebelião contra D_us. Na cruz, Yeshua enfrentou essa rebelião na sua raiz. Paulo diz que Ele cancelou o escrito de dívida que era contra nós, “removendo-o do meio de nós, pregando-o na cruz”, e que despojou os poderes das trevas, “triunfando sobre eles” (Cl 2.14-15). A rebelião não desapareceu do mundo, mas perdeu o seu poder sobre os que estão no Messias.
2. “Dar fim aos pecados”
No sistema do templo, os sacrifícios precisavam ser repetidos sem parar, dia após dia, ano após ano. A carta aos Hebreus observa que, se aqueles sacrifícios resolvessem o problema definitivamente, teriam deixado de ser oferecidos (Hb 10.1-2). Mas Yeshua, “tendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à direita de D_us… porque com uma única oferta aperfeiçoou para sempre os que estão sendo santificados” (Hb 10.12-14).
3. “Expiar a iniquidade”
O verbo aqui é kapér, da mesma raiz de Kipur, como em Yom Kipur. Expiar é cobrir, pagar, reconciliar. No Santo dos Santos havia uma tampa de ouro sobre a arca da aliança, o kapóret, onde o sumo sacerdote aspergia o sangue no Dia da Expiação. Paulo usa exatamente esse termo para Yeshua: D_us o apresentou “como propiciatório, por meio da fé, no seu sangue” (Rm 3.25). A palavra grega é hilastérion, a mesma que a antiga tradução grega da Bíblia usa para o kapóret. Yeshua é o lugar onde a expiação acontece.
4. “Trazer a justiça eterna”
A justiça que vem pela fé no Messias não é temporária, não precisa ser renovada a cada ano. Hebreus diz que Ele entrou no santuário celestial “uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (Hb 9.12). A justiça eterna de Daniel é a redenção eterna de Hebreus.
5. “Selar a visão e o profeta”
Selar um documento, na Antiguidade, era confirmar sua autenticidade. Todas as visões e profecias a respeito do Messias encontraram nele a sua confirmação: o lugar do nascimento (Mq 5.2), a entrada em Jerusalém (Zc 9.9), o sofrimento do Servo (Is 53), o sangue da aliança, a ressurreição (Sl 16.10). Cada uma delas recebeu em Yeshua o selo que prova que os profetas falaram a verdade.
É nesse sentido que Yeshua disse que “todos os Profetas e a Torá profetizaram até João” (Mt 11.13; Lc 16.16). O que eles profetizavam era a vinda do Messias; com João, o precursor, essa vinda chegou, e o Reino passou a ser anunciado. Yeshua não estava dizendo que a Torá tinha prazo de validade até João. Tanto que, no versículo seguinte de Lucas, Ele acrescenta: “É mais fácil passar o céu e a terra do que cair um só til da Torá” (Lc 16.17). O que se encerrou foi a espera pelo Messias, não a Torá.
6. “Ungir o Santo dos Santos”
A palavra “ungir” é limshóach, da mesma raiz de Mashiach, o Ungido, o Messias. Quando Yeshua saiu das águas do Jordão, o Espírito desceu sobre Ele. Pedro explica que foi ali que “D_us ungiu Yeshua de Nazaré com o Ruach HaKodesh e com poder” (At 10.38). E o próprio Yeshua, na sinagoga de Nazaré, leu Isaías 61: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu” — e acrescentou: “Hoje se cumpriu esta Escritura” (Lc 4.18-21). Ele é o verdadeiro Santo dos Santos, o lugar onde D_us habita no meio do seu povo (Jo 2.19-21).
Se as setenta semanas terminaram no primeiro século, os seis objetivos precisam ter sido cumpridos até lá. E foram. Todos eles se cumpriram no ministério e no sacrifício de Yeshua.
Quem separa a última semana e a coloca no futuro precisa dizer que algumas dessas coisas ainda não aconteceram. Mas pense no que isso significa: seria dizer que a cruz ainda não deu fim ao pecado, ainda não trouxe a justiça eterna, ainda não fez a expiação completa. Nenhum irmão sincero quer dizer isso. Mas é para onde a teoria nos empurra.
Para conversar em grupo
- Qual dos seis objetivos de Daniel 9.24 mais tocou você? Por quê?
- Qual a relação entre a palavra kapér (expiar) e Yom Kipur? E com Romanos 3.25?
- Por que adiar a última semana para o futuro diminui, sem querer, o valor da cruz?
Capítulo 5
O relógio começa a contar
“Cumpriu-se o tempo, e o Reino de D_us está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho.”Marcos 1.15
Toda contagem precisa de um ponto de partida. O anjo diz qual é:
O relógio começa quando sai uma ordem — um decreto — para restaurar e edificar Jerusalém. Na história, os reis persas emitiram alguns decretos favoráveis aos judeus. O primeiro foi o de Ciro, em 538 a.C., que permitiu a volta dos exilados e a reconstrução do templo (Ed 1.1-4). Depois Dario confirmou esse decreto (Ed 6). Mas o decreto que realmente devolveu a Jerusalém a sua condição de cidade organizada, com leis e juízes próprios, foi o de Artaxerxes, no sétimo ano do seu reinado, entregue ao sacerdote e escriba Esdras.
Leia Esdras 7.11-26. É um documento impressionante. O rei não autoriza apenas uma viagem. Ele dá a Esdras recursos do tesouro real, isenta os servidores do templo de impostos e, principalmente, manda que ele nomeie juízes e magistrados para julgar o povo segundo a Torá do D_us de Israel, com poder até de aplicar penas (Ed 7.25-26). Isso é restaurar Jerusalém como cidade, como comunidade governada. E esse decreto é datado do ano 457 antes de Cristo.
O decreto de Artaxerxes aparece na Bíblia escrito em aramaico, a língua oficial do Império Persa (Ed 7.12-26), e não em hebraico como o restante do capítulo. Esdras copiou o documento oficial exatamente como saiu da chancelaria real. É um detalhe que dá peso histórico ao texto.
Fazendo as contas
Agora é só somar. Do decreto até o Messias são 7 + 62 = 69 semanas, ou seja, 69 × 7 = 483 anos.
Partindo de 457 a.C. e contando 483 anos, chegamos ao ano 27 d.C. (Uma observação para quem gosta de matemática: não existe “ano zero” no nosso calendário; do ano 1 a.C. passamos direto para o ano 1 d.C. Por isso a conta dá 27, e não 26.)
E o que aconteceu no ano 27? Lucas nos dá a data com precisão de historiador: “no décimo quinto ano do reinado de Tibério César… veio a palavra de D_us a João” (Lc 3.1-2). João começa a pregar e a imergir no Jordão, e é nesse período que Yeshua vem até ele, é imerso e recebe a unção do Espírito. Lucas acrescenta que Yeshua tinha então “cerca de trinta anos” (Lc 3.23), a idade em que os sacerdotes começavam o seu serviço (Nm 4.3).
O décimo quinto ano de Tibério, contado da forma como era comum nas províncias do Oriente — a partir do momento em que ele passou a governar junto com o imperador Augusto —, cai justamente em 26-27 d.C. A profecia marcou o ano em que o Messias seria revelado, e Ele se revelou.
Agora você entende por que a primeira pregação de Yeshua, logo depois do batismo, foi esta: “O tempo está cumprido” (Mc 1.15). Que tempo? Qual outra profecia da Bíblia marcava um prazo para a chegada do Messias? Só uma: as semanas de Daniel. Yeshua estava dizendo, em outras palavras: “O relógio de Daniel chegou à hora marcada. O Ungido está aqui.”
A última semana
Resta uma semana, sete anos, que vai de 27 a 34 d.C. O versículo 27 diz que “na metade da semana” o Messias faria cessar o sacrifício e a oferta. A metade de sete anos são três anos e meio. E quanto tempo durou o ministério público de Yeshua? O Evangelho de João registra as festas de Pessach que Ele celebrou durante o ministério (Jo 2.13; 6.4; 11.55). Somando esse período, chegamos a cerca de três anos e meio. Contando de 27 d.C., chegamos à Páscoa do ano 31 d.C., quando o Messias foi crucificado.
E os três anos e meio restantes? Depois da ressurreição, Yeshua mandou que os apóstolos começassem “por Jerusalém” (Lc 24.47; At 1.8). Durante esse período, o Evangelho foi pregado primeiro aos judeus (At 3.26; Rm 1.16). Milhares creram em Jerusalém (At 2.41; 4.4). A aliança estava sendo confirmada “com muitos”, exatamente como Daniel disse.
Por volta do ano 34, Estêvão é apedrejado pelas lideranças de Jerusalém (At 7). Logo depois vem uma grande perseguição, os discípulos são espalhados, o Evangelho chega a Samaria (At 8), Saulo de Tarso se converte e é chamado para ser apóstolo dos gentios (At 9), e Pedro entra na casa do centurião romano Cornélio (At 10). A última semana termina, e as portas se abrem para as nações.

Figura 2 — A 70ª semana, de 27 a 34 d.C., dividida ao meio pela morte do Messias.
457 a.C. — Artaxerxes dá o decreto a Esdras. O relógio começa.
27 d.C. — Yeshua é imerso e ungido. Terminam as 69 semanas. “O tempo está cumprido.”
31 d.C. — No meio da última semana, o Messias é “cortado”.
34 d.C. — Termina a 70ª semana; o Evangelho se abre às nações.
Para conversar em grupo
- Por que o decreto de Artaxerxes (Ed 7) é o ponto de partida mais adequado?
- O que Yeshua quis dizer com “o tempo está cumprido” (Mc 1.15)?
- Como o livro de Atos mostra a aliança sendo confirmada primeiro com Israel e depois estendida às nações?
Capítulo 6
Quem confirma a aliança?
“Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos.”Mateus 26.28
Chegamos ao versículo mais disputado de toda a profecia. Vamos lê-lo com atenção:
A pergunta é: quem é esse “Ele”? Toda a teoria da semana separada depende da resposta. Se “Ele” for o Messias, a última semana se cumpriu no primeiro século. Se fosse, como ensina a teoria da semana separada, um Anticristo que ainda estaria por vir, essa semana ficaria para o futuro.
Adiantamos desde já a posição da nossa congregação: não esperamos a manifestação de um Anticristo no futuro. Cremos que esse poder já se levantou na história, já se estabeleceu e já imprimiu o seu sinal — como veremos nos capítulos 11 e 12. Mas, para que a leitura seja justa, vamos primeiro entender como os irmãos dispensacionalistas leem o versículo.
Dois príncipes no mesmo texto
Antes de discutir o “Ele”, precisamos resolver uma confusão que está na raiz de todo o debate. Nos versículos 25 e 26, a palavra “príncipe” aparece duas vezes. Em hebraico é naguíd, que quer dizer líder, comandante, aquele que vai à frente. Como a palavra é a mesma, muita gente pensa que se trata da mesma pessoa, ou mistura as duas. Mas são dois príncipes diferentes, e o próprio texto os distingue.
O primeiro príncipe aparece no versículo 25: “até o Ungido, o Príncipe” — em hebraico מָשִׁיחַ נָגִיד, Mashíach Naguíd. Repare que o título “Príncipe” vem colado ao título “Ungido”. Ele é o Messias. É Ele quem chega ao fim das 69 semanas, em 27 d.C., e é Ele quem, no versículo 26, “será cortado” — morto. O primeiro príncipe é Yeshua.
O segundo príncipe aparece logo depois, no mesmo versículo 26: “o povo de um príncipe que há de vir” — em hebraico נָגִיד הַבָּא, naguíd habá. Esse não é chamado de Ungido. Ele não chega ao fim de semana nenhuma, não é cortado, não faz nada no texto. Ele aparece apenas para dizer de quem era o povo que destruiria Jerusalém. Na história, esse povo foram as legiões romanas, e o seu comandante foi Tito, filho do imperador Vespasiano, que cercou e destruiu Jerusalém e o templo no ano 70 d.C. (e mais tarde se tornou imperador). O segundo príncipe é Tito, o general romano.
E o povo, quem é? É o exército romano. É o povo que pratica a ação do versículo 26: “o povo… destruirá a cidade e o santuário”. Quem destrói não é o príncipe; é o seu povo, o seu exército.
Um último detalhe: “que há de vir” significa que esse príncipe viria no futuro de Daniel, que vivia na Babilônia, cinco séculos antes. Para nós, ele já veio — em 70 d.C. A expressão não aponta para o nosso futuro.

Figura 3 — Os dois príncipes de Daniel 9: o Messias (verde) e o general romano (vinho).
Lendo os versículos como uma cena
Agora leia a profecia como quem assiste a um filme, acompanhando cada personagem que entra em cena:
| Verso | Quem aparece | Quem é | O que faz |
|---|---|---|---|
| 25 | “o Ungido, o Príncipe” | Príncipe 1: Yeshua | Chega ao fim das 69 semanas (27 d.C.). |
| 26a | “o Ungido” | Príncipe 1: Yeshua | É cortado — morre na cruz (31 d.C.). |
| 26b | “o povo” | As legiões romanas | Destroem a cidade e o santuário (70 d.C.). |
| 26b | “de um príncipe que há de vir” | Príncipe 2: Tito | Nada. Só identifica de quem é o povo. |
| 27a | “Ele” | Príncipe 1: Yeshua | Confirma a aliança com muitos; faz cessar os sacrifícios. |
| 27b | “o assolador” | O poder romano | Traz a destruição decretada (70 d.C.). |
Percebe o movimento? O texto alterna entre dois assuntos: a obra do Messias (em verde) e a consequência dessa rejeição, que é a destruição por Roma (em vinho). O versículo 26 fala primeiro do Messias e depois de Roma. O versículo 27 faz o mesmo: primeiro o Messias confirma a aliança e faz cessar os sacrifícios; depois vem o assolador romano. O protagonista é sempre o Messias. Roma entra em cena como consequência.
Como a teoria da semana separada lê o versículo
É justo, antes de discordar, explicar com clareza o que os irmãos dispensacionalistas ensinam. Eles concordam que o povo do versículo 26 é o povo romano. Mas dizem que o segundo príncipe não seria Tito, e sim um líder romano do fim dos tempos — o Anticristo, vindo de um “Império Romano restaurado”. E como esse segundo príncipe é, dizem eles, o personagem citado por último antes do versículo 27, o “Ele” que confirma a aliança seria esse Anticristo.
Esse Anticristo faria um acordo de sete anos com Israel, permitindo a reconstrução do templo. Na metade dos sete anos, romperia o acordo, faria parar os sacrifícios e se colocaria no templo como deus. Por isso, dizem eles, a última semana ainda não se cumpriu: ela espera o Anticristo.
Em outras palavras: a teoria troca o Príncipe 1 pelo Príncipe 2 no versículo 27. Parece organizado. Mas quando olhamos o texto hebraico de perto, as peças não encaixam. Vejamos quatro razões.
Razão 1: O Príncipe 2 nunca age na frase
Olhe o versículo 26b palavra por palavra, na ordem do hebraico: “E a cidade e o santuário / destruirá / o povo de um príncipe / que há de vir.” O verbo “destruir” tem um sujeito: o povo. O príncipe aparece só “pendurado” no povo, dizendo a quem ele pertence — como quando dizemos “os soldados de Tito”. Na frase, quem faz alguma coisa são os soldados, não Tito.
Então, quando o versículo 27 começa com “E Ele confirmará uma aliança”, a quem o leitor naturalmente liga esse “Ele”? Não a alguém que apenas foi mencionado de passagem como dono de um exército, e que não praticou nenhuma ação. O leitor liga ao personagem que a profecia vem acompanhando desde o início: aquele que chegou (v. 25), que foi cortado (v. 26) e que agora confirma a aliança (v. 27). O Príncipe 1, o Messias.
E há ainda uma prova simples, que qualquer um pode conferir: o que o versículo 27 descreve combina com qual dos dois? Tito não confirmou aliança nenhuma com ninguém; ele incendiou o templo. Yeshua, na véspera da sua morte, ergueu o cálice e disse: “Isto é o meu sangue da aliança, derramado em favor de muitos” (Mt 26.28). A descrição do versículo 27 é o retrato do Messias, não do general romano.
Príncipe 1 — “o Ungido, o Príncipe” (v. 25): Yeshua. Chega em 27 d.C., é cortado em 31 d.C. e confirma a aliança com muitos (v. 27).
O povo — “o povo… destruirá a cidade” (v. 26): as legiões romanas.
Príncipe 2 — “um príncipe que há de vir” (v. 26): Tito, o general romano de 70 d.C. Só identifica de quem é o povo.
O “Ele” do versículo 27 é o Príncipe 1. A teoria da semana separada troca o Príncipe 1 pelo Príncipe 2 — e ainda transforma Tito num Anticristo futuro.
Razão 2: Não é “fazer” uma aliança, é “confirmar”
Em hebraico, quando alguém faz um acordo novo, a expressão é sempre karát berít — literalmente “cortar uma aliança”. É assim com Abraão (Gn 15.18), no Sinai (Êx 24.8), na nova aliança de Jeremias (Jr 31.31). Se Daniel quisesse falar de um tratado novo entre o Anticristo e Israel, usaria essa expressão.
Mas ele não usa. Usa וְהִגְבִּיר בְּרִית — vehigbír berít, que significa “fará prevalecer, fortalecerá, confirmará a aliança”. Você só pode confirmar algo que já existe. Que aliança já existia? A aliança de D_us com Abraão, com Israel, a promessa de um Redentor. E Paulo diz exatamente isso: o Messias veio “para confirmar as promessas feitas aos pais” (Rm 15.8).
Razão 3: “Com muitos” é a assinatura do Messias
A expressão “com muitos”, em hebraico larabím, não é qualquer expressão. Ela aparece no capítulo mais famoso sobre o Messias sofredor, Isaías 53: “o meu Servo, o Justo, justificará a muitos… ele levou o pecado de muitos” (Is 53.11-12).
E agora a prova mais bonita. Na noite de Pessach, antes de ser entregue, Yeshua tomou o cálice e disse: “Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos” (Mt 26.28). Aliança, muitos, sangue. É o próprio Yeshua explicando Daniel 9.27. Ele é quem confirma a aliança com muitos — e a confirma com o seu próprio sangue.
Razão 4: Os sacrifícios cessaram na cruz
“Na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta.” No exato momento em que Yeshua morreu, “o véu do santuário se rasgou em duas partes, de alto a baixo” (Mt 27.51). De alto a baixo — foi D_us quem rasgou, não um homem. O caminho para o Santo dos Santos estava aberto.
É verdade que os sacerdotes continuaram oferecendo animais no templo por mais quarenta anos, até a destruição em 70 d.C. Mas aos olhos de D_us aqueles sacrifícios já não tinham valor para tirar pecados, porque o Cordeiro verdadeiro já tinha sido oferecido. A carta aos Hebreus diz: “Onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado” (Hb 10.18).
Pense no que a teoria da semana separada exige: que no futuro seja construído um novo templo, com sacrifícios de animais pelo pecado, e que um suposto Anticristo futuro os faça parar. Mas por que D_us daria valor, de novo, a sacrifícios de animais depois que o sangue de Yeshua foi derramado? Hebreus diz que esse sistema estava “envelhecido e perto de desaparecer” (Hb 8.13).
Isso não quer dizer que a Torá foi abolida. A Torá continua sendo a instrução de D_us para a vida do seu povo. O que se cumpriu em Yeshua foi o sistema sacrificial pelo pecado, que apontava para Ele.
E a destruição de Jerusalém?
O versículo 26 diz que, depois de o Messias ser cortado, “o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário”. Isso aconteceu no ano 70 d.C., quando as legiões romanas comandadas por Tito cercaram Jerusalém, incendiaram o templo e arrasaram a cidade. Yeshua havia chorado sobre Jerusalém anunciando essa destruição (Lc 19.41-44).
Mas 70 d.C. está fora dos 490 anos! Isso é um problema? Não. O texto diz que a destruição estava decretada — e foi decretada dentro das setenta semanas, como consequência da rejeição do Messias. A execução da sentença veio uma geração depois. É como um juiz que dá a sentença num dia e a pena é cumprida mais tarde. A profecia não precisa colocar a destruição dentro da última semana; ela a apresenta como resultado.
E quando Yeshua falou da “abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel” (Mt 24.15), Lucas registrou a mesma fala de um jeito que explica o sentido: “quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação” (Lc 21.20). E Yeshua completou: “Não passará esta geração sem que tudo isso aconteça” (Mt 24.34). Os discípulos que ouviram essas palavras viram tudo acontecer.
| No versículo 27 | Leitura messiânica | Leitura da semana separada |
|---|---|---|
| Quem é “Ele”? | O Príncipe 1, o Messias | O Príncipe 2 transformado em Anticristo futuro |
| “Confirmar aliança” | Confirmar a aliança já existente | Fazer um tratado novo (exigiria outra expressão) |
| “Com muitos” | Os muitos de Is 53 e Mt 26.28 | A nação de Israel |
| Fim dos sacrifícios | Na cruz; véu rasgado | Num templo futuro |
| “Uma semana” | 27 a 34 d.C. | Sete anos ainda por vir |
Para conversar em grupo
- Quem são, em Daniel 9.25-27, o Príncipe 1, o Príncipe 2 e o povo? Qual deles confirma a aliança no versículo 27?
- Qual a diferença entre “fazer” (karát) e “confirmar” (higbír) uma aliança?
- Leia Isaías 53.11-12 e Mateus 26.28 lado a lado. Que ligação você vê com Daniel 9.27?
Capítulo 7
Três dias e três noites
“Assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.”Mateus 12.40
Os fariseus e os escribas vieram até Yeshua pedindo um sinal. Queriam uma prova de que Ele era mesmo o Messias. A resposta foi dura: “Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas” (Mt 12.39).
De todos os sinais que Yeshua poderia ter oferecido, escolheu um só. E esse sinal tem uma medida exata de tempo: três dias e três noites. Não “parte de três dias”, não “mais ou menos três dias”. O Messias deu a sua própria palavra como prova, e deu com número.
O problema da sexta-feira
A tradição que a maioria das igrejas segue diz que Yeshua morreu numa sexta-feira à tarde e ressuscitou no domingo de manhã. Vamos contar. Sexta à tarde até o pôr do sol: uma parte de dia. Sexta à noite: uma noite. Sábado: um dia. Sábado à noite: segunda noite. Domingo de madrugada: ressurreição. Temos, no máximo, duas noites e um dia e pouco.
Alguns explicam que, para os judeus, “parte de um dia” contava como um dia inteiro. Isso até pode valer para a expressão “ao terceiro dia”. Mas Yeshua não disse apenas “três dias”; disse “três dias e três noites”. E não existe maneira honesta de encaixar três noites entre sexta à tarde e domingo de manhã.
Uma semana com dois sábados
A solução está na Torá. Muitos irmãos não sabem, mas a Bíblia não tem apenas o Shabat semanal. As festas bíblicas também têm dias de descanso solene, que são chamados de shabatot, e que caem em qualquer dia da semana. O primeiro dia da Festa dos Pães Asmos, o 15 de Nisan, é um desses dias: “no primeiro dia tereis santa convocação; nenhum trabalho servil fareis” (Lv 23.6-7).
O Evangelho de João faz questão de dizer que o sábado seguinte à crucificação era especial: “era grande o dia daquele sábado” (Jo 19.31). Era um “grande sábado”, o shabat da festa, e não necessariamente o sábado semanal. Quando os Evangelhos dizem que Yeshua foi crucificado no “dia da preparação”, João explica que era a “preparação da Páscoa” (Jo 19.14) — a preparação para a festa, e não para o sábado comum.
A pista dos perfumes
Agora vem uma pista que qualquer leitor atento pode conferir. As mulheres queriam ungir o corpo de Yeshua com aromas. Veja o que dizem dois Evangelhos:
Marcos diz que elas compraram os aromas depois de um sábado. Lucas diz que elas prepararam os aromas e depois descansaram no sábado. Ninguém prepara um perfume que ainda não comprou. Como resolver? Simples: havia dois sábados, com um dia comum de trabalho no meio. Passou o primeiro sábado (o da festa, na quinta-feira); na sexta, elas compraram e prepararam os aromas; no sábado semanal, descansaram segundo o mandamento; e no domingo, bem cedo, foram ao túmulo.
E Mateus confirma. O texto grego de Mateus 28.1 diz literalmente: “depois dos sábados” — no plural: opsé de sabbáton. Muitas traduções colocam no singular, mas no original está no plural.
A semana da paixão, dia por dia
Lembre-se de que, na Bíblia, o dia começa ao pôr do sol: “houve tarde e houve manhã, o primeiro dia” (Gn 1.5). Primeiro vem a noite, depois o dia claro. Com isso em mente, veja como tudo se encaixa:
| Dia | O que aconteceu |
|---|---|
| Quarta-feira (14 de Nisan) | Dia da preparação da Páscoa. Yeshua é crucificado pela manhã, morre na hora nona e é sepultado às pressas antes do pôr do sol, porque o dia seguinte era um grande sábado. |
| Quinta-feira (15 de Nisan) | Shabat da festa. Primeiro dia dos Pães Asmos. Os líderes pedem guarda para o túmulo (Mt 27.62-66). 1ª noite e 1º dia. |
| Sexta-feira (16 de Nisan) | Dia comum. As mulheres compram e preparam os aromas. 2ª noite e 2º dia. |
| Sábado (17 de Nisan) | Shabat semanal. As mulheres descansam segundo o mandamento. 3ª noite e 3º dia. Ao pôr do sol, cumpridas as 72 horas, Yeshua ressuscita. |
| Domingo (18 de Nisan) | Ainda escuro, as mulheres vão ao túmulo e o encontram já vazio. |

Figura 4 — O Sinal de Jonas: sepultado no fim da quarta-feira, ressuscitado no fim do sábado.
Mas o túmulo não foi encontrado vazio no domingo?
Sim, e é exatamente isso que os Evangelhos dizem: o túmulo foi encontrado vazio no domingo. Nenhum Evangelho descreve o momento da ressurreição. Quando as mulheres chegaram, “ainda escuro” (Jo 20.1), a pedra já tinha sido removida, e o anjo disse: “Ele não está aqui; ressuscitou” (Mt 28.6) — no passado, algo que já tinha acontecido. Yeshua ressuscitou ao final do Shabat, ao pôr do sol, completando exatamente três dias e três noites no coração da terra.
E a ligação com Daniel?
Aqui há uma harmonia bonita. Daniel disse que o Messias seria cortado “no meio da semana” — referindo-se à semana de anos, os sete anos de 27 a 34 d.C. Pois bem: o Messias foi cortado no meio da semana de anos (31 d.C.) e também no meio da semana de dias, numa quarta-feira. Os estudiosos que defendem a crucificação na quarta-feira calculam que o 14 de Nisan do ano 31 caiu justamente numa quarta-feira.
Não apresentamos isso como a prova principal — a prova principal é a palavra do próprio Yeshua sobre o sinal de Jonas e a harmonia entre Marcos, Lucas, João e Mateus. Mas é uma daquelas coincidências que o crente reconhece como a assinatura de D_us na história.
E Lucas 24.21? Os discípulos de Emaús, no domingo, dizem que “já é o terceiro dia desde que estas coisas aconteceram”. Mas “estas coisas” incluem tudo o que eles tinham acabado de contar, inclusive a guarda posta no túmulo, que foi colocada no dia seguinte à crucificação (Mt 27.62). Contando da quinta-feira, o domingo é de fato o terceiro dia.
Os próprios adversários de Yeshua entendiam que “depois de três dias” e “até o terceiro dia” eram expressões equivalentes: pediram guarda “até o terceiro dia” justamente porque Ele tinha dito que ressuscitaria “depois de três dias” (Mt 27.63-64).
Para conversar em grupo
- Por que Yeshua escolheu justamente o sinal de Jonas como prova de que era o Messias?
- Explique, com a pista dos aromas (Mc 16.1 e Lc 23.56), por que houve dois sábados naquela semana.
- O que significa, para você, saber que o Messias cumpriu exatamente a palavra que deu?
Capítulo 8
De onde veio a “semana separada”?
“Não removas os marcos antigos que puseram teus pais.”Provérbios 22.28
Muitos irmãos que aprenderam sobre o arrebatamento secreto e os sete anos de tribulação imaginam que essa sempre foi a fé da Igreja. Que os apóstolos pregavam assim, que os primeiros cristãos esperavam assim. Por isso é importante contar a história de como essa doutrina surgiu. Não para zombar de ninguém, mas para colocar as coisas no seu devido lugar.
O que os primeiros cristãos pensavam
Nos primeiros séculos, vários escritores da Igreja estudaram as setenta semanas de Daniel e tentaram fazer as contas. Júlio Africano, Tertuliano, Clemente de Alexandria e, mais tarde, Eusébio de Cesareia chegaram a datas um pouco diferentes, porque usavam pontos de partida diferentes. Mas a grande maioria concordava no essencial: as setenta semanas terminaram na vinda do Messias e na destruição de Jerusalém. Ninguém entre eles imaginava que a última semana estivesse guardada para um futuro distante.
Houve uma exceção. Por volta do ano 200, Hipólito de Roma sugeriu que a última semana ficaria para o fim dos tempos, ligada ao Anticristo. Mas sua opinião foi isolada e não se tornou o ensino da Igreja.
Uma resposta aos Reformadores
Mil e quatrocentos anos depois, no século XVI, os Reformadores protestantes — Lutero, Calvino e muitos outros — liam as profecias de Daniel e do Apocalipse e diziam algo que incomodava muito Roma: que o sistema da besta e do Anticristo estava ligado ao papado. Diante disso, alguns estudiosos jesuítas desenvolveram interpretações alternativas. Um deles, Francisco Ribera, por volta de 1590, propôs que quase tudo no Apocalipse ainda estava no futuro, reservado para um Anticristo individual que apareceria no fim dos tempos. Se o Anticristo está no futuro, não pode ser o papado.
Dois séculos depois, outro jesuíta, o chileno Manuel Lacunza, escreveu um livro sobre a vinda do Messias em glória, publicado sob um pseudônimo judeu. Esse livro foi traduzido para o inglês em 1827 por um pregador escocês chamado Edward Irving e circulou nos meios que estudavam profecias na Grã-Bretanha.
John Nelson Darby e o século XIX
É nesse ambiente que surge John Nelson Darby (1800–1882), um ex-sacerdote anglicano irlandês, homem culto e muito dedicado, que se tornou um dos líderes do movimento conhecido como Irmãos de Plymouth. Entre 1827 e 1833, e especialmente nas conferências sobre profecia realizadas na propriedade de Powerscourt, na Irlanda (1831–1833), Darby organizou um sistema completo de interpretação que ficou conhecido como dispensacionalismo.
As ideias centrais eram estas: D_us tem dois povos distintos, Israel (terreno) e a Igreja (celestial); o relógio profético de Israel parou na 69ª semana; a Igreja é um “parêntese” que não estava previsto pelos profetas; antes de o relógio voltar a andar, a Igreja precisa ser retirada da terra em segredo — o arrebatamento —, e então D_us volta a tratar com Israel durante os sete anos da 70ª semana.
Alguns historiadores apontam também a influência de uma jovem escocesa, Margaret MacDonald, que em 1830 teve uma visão sobre a vinda do Senhor. Se essa visão realmente influenciou Darby é um assunto debatido, e não vamos afirmar o que não se pode provar. O que é certo é que, como sistema organizado, a semana separada e o arrebatamento secreto são ensinos do século XIX.
Como a doutrina chegou até nós
Nos Estados Unidos, o sistema de Darby se espalhou por meio de conferências bíblicas no fim do século XIX. Em 1881, Sir Robert Anderson publicou um livro com cálculos detalhados das setenta semanas nessa linha. Mas o grande impulso veio em 1909, com a publicação da Bíblia de Referência Scofield. As notas de rodapé de C. I. Scofield explicavam os textos proféticos segundo o dispensacionalismo, e muitos leitores passaram a confundir a nota de rodapé com a própria Bíblia.
No século XX, seminários, livros populares e, mais tarde, filmes e romances levaram essas ideias ao mundo inteiro. No Brasil, elas chegaram principalmente pela literatura evangélica norte-americana, por Bíblias de estudo com notas dessa escola e por pregadores formados nela. Com o tempo, tornaram-se tão comuns em muitas igrejas que passaram a ser vistas como “a doutrina bíblica” sobre o fim, sem que a maioria dos irmãos soubesse que existiam outras leituras, muito mais antigas.
| Quando | Quem | O que aconteceu |
|---|---|---|
| Séc. II–IV | Pais da Igreja | A maioria vê as 70 semanas cumpridas em Yeshua. |
| c. 200 | Hipólito | Opinião isolada: última semana no futuro. |
| c. 1590 | Francisco Ribera | Futurismo como resposta aos Reformadores. |
| 1827 | Lacunza / Irving | Livro de um jesuíta chega aos estudiosos britânicos. |
| 1827–1833 | J. N. Darby | Organiza a semana separada e o arrebatamento secreto. |
| 1909 | C. I. Scofield | Bíblia com notas espalha o sistema. |
| Séc. XX | Livros e filmes | Popularização em massa, inclusive no Brasil. |

Figura 5 — A leitura contínua e a leitura com um “buraco” entre a 69ª e a 70ª semana.
Se durante mais de dezoito séculos quase ninguém na história da fé ensinou a semana separada e o arrebatamento secreto, será que ela está mesmo tão clara na Bíblia quanto nos disseram? Uma doutrina que dependeu de notas de rodapé para se espalhar merece, pelo menos, ser conferida com cuidado.
Para conversar em grupo
- Você sabia que o arrebatamento secreto como sistema surgiu no século XIX? O que pensa disso?
- Por que é perigoso confundir as notas de uma Bíblia de estudo com o próprio texto bíblico?
- Qual a diferença entre dizer que “ninguém nunca pensou nisso antes” e dizer que “foi um ensino minoritário até o século XIX”?
Capítulo 9
Quem será levado e quem será deixado?
“Deixai crescer ambos juntos até a colheita; e no tempo da colheita direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio.”Mateus 13.30
Chegamos à pergunta que dá nome a este capítulo, e que talvez seja a mais importante do livro para quem cresceu ouvindo sobre o arrebatamento secreto. Nas pregações que ouvimos, a cena é sempre a mesma: os crentes são levados, e os ímpios ficam para trás. “Um será tomado e outro deixado” — e todo mundo queria ser o tomado.
Mas o que Yeshua realmente ensinou? Vamos deixar que Ele mesmo responda, por meio de três ensinos que tratam exatamente desse assunto.
1. O trigo e o joio
Yeshua contou que um homem semeou boa semente no seu campo. De noite, um inimigo veio e semeou joio no meio do trigo. Quando as plantas cresceram, os servos perceberam e perguntaram se deviam arrancar o joio. O dono respondeu que não, para que não arrancassem o trigo junto. “Deixai crescer ambos juntos até a colheita; e no tempo da colheita direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio e atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro” (Mt 13.30).
Repare na ordem: primeiro o joio. Quem é retirado primeiro do campo não é o trigo, é o joio. O trigo permanece no campo até ser recolhido ao celeiro.
E Yeshua mesmo explicou a parábola, para não deixar dúvida (Mt 13.36-43). O campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino. O joio são os filhos do maligno. A colheita é o fim do mundo. E então: “Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será no fim do mundo. O Filho do Homem enviará os seus anjos, e eles ajuntarão do seu Reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha de fogo… Então os justos resplandecerão como o sol no Reino de seu Pai.”
Não há como ser mais claro. Quem é tirado são os que praticam a iniquidade. Quem fica e resplandece são os justos.

Figura 6 — Na colheita, o joio sai primeiro; o trigo é guardado.
A palavra traduzida por “iniquidade” em Mateus 13.41 é, em grego, anomía. Ela é formada por a- (sem) e nómos (lei, a palavra que os judeus que falavam grego usavam para a Torá). Anomía é, literalmente, viver sem Torá. João define: “o pecado é a anomía”, a transgressão da Lei (1Jo 3.4).
É a mesma palavra que Yeshua usa no Sermão do Monte: “Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.23). Os que serão tirados na colheita não são simplesmente “os que não foram à igreja”. São os que viveram rejeitando a instrução de D_us.
2. A rede
No mesmo capítulo, Yeshua contou outra parábola. O Reino é como uma rede lançada ao mar, que apanha peixes de todo tipo. Os pescadores a puxam para a praia, recolhem os bons em cestos e jogam fora os ruins. “Assim será no fim do mundo: sairão os anjos e separarão os maus do meio dos justos” (Mt 13.49).
De novo: não são os justos retirados do meio dos maus. São os maus retirados do meio dos justos.
3. Como nos dias de Noé
Agora chegamos ao texto preferido de quem prega o arrebatamento secreto: “Então, dois estarão no campo; um será tomado, e o outro será deixado. Duas estarão moendo no moinho; uma será tomada, e a outra será deixada” (Mt 24.40-41).
Mas leia os versículos imediatamente anteriores, que Yeshua disse no mesmo fôlego: “Como foi nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem. Porque, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o dia em que Noé entrou na arca, e não perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos…” (Mt 24.37-39).
Pergunta simples: quem o dilúvio levou? Os ímpios. E quem ficou? Noé e sua família, guardados na arca, flutuando sobre a mesma terra, e depois descendo para habitá-la de novo. Logo depois de dizer que o dilúvio “levou” os ímpios, Yeshua diz: “um será tomado, e outro deixado”. No contexto, ser tomado é ser levado como os da geração do dilúvio. Ser deixado é ser preservado como Noé.
A pergunta que os discípulos fizeram
Alguém poderia argumentar que a palavra grega para “tomado”, paralambáno, às vezes tem sentido positivo, como quando Yeshua diz “virei outra vez e vos tomarei para mim” (Jo 14.3). É um argumento justo, e é bom conhecê-lo. Mas o próprio Evangelho resolve a dúvida.
Em Lucas 17, depois de falar sobre os dias de Noé e de Ló e de dizer que um seria tomado e outro deixado, os discípulos fizeram exatamente a pergunta que nós fazemos: “Onde, Senhor?” — isto é, para onde vão os que são tomados? E Yeshua respondeu: “Onde estiver o corpo morto, aí se ajuntarão os abutres” (Lc 17.37).
Os tomados vão para o lugar dos cadáveres. É uma imagem de juízo, não de glória. Ser deixado é ser preservado.
Um padrão em toda a Bíblia
Isso não aparece só nessas parábolas. Em toda a Escritura, quando D_us julga o mundo, o padrão é o mesmo: Ele remove o ímpio e preserva o justo, muitas vezes no meio do próprio juízo.
| Episódio | Quem é removido | Quem é preservado |
|---|---|---|
| O dilúvio (Gn 7) | Os ímpios, levados pelas águas | Noé, guardado na arca, sobre a terra |
| As pragas do Egito (Êx 8–12) | Os egípcios sofrem os juízos | Israel, protegido em Gósen, no meio do Egito |
| O trigo e o joio (Mt 13) | O joio, recolhido primeiro | O trigo, guardado no celeiro |
| A rede (Mt 13) | Os maus, separados do meio | Os justos |
| Provérbios 2.21-22 | Os ímpios são arrancados da terra | Os retos habitarão a terra |
| Salmo 37 e Mt 5.5 | Os malfeitores serão exterminados | Os mansos herdarão a terra |
Pense especialmente no Egito. As dez pragas caíram sobre o país inteiro, mas D_us fez distinção: “Naquele dia separarei a terra de Gósen, em que habita o meu povo, para que nela não haja enxames de moscas” (Êx 8.22). Israel não foi retirado do Egito antes das pragas. Foi guardado no meio delas. E só saiu depois, em triunfo, na noite de Pessach. O Apocalipse, com suas trombetas e taças, está cheio de ecos das pragas do Egito. Não é por acaso: o povo de D_us passará pelo tempo final como Israel passou pelo Egito — protegido, e não retirado.
Quem crê na semana separada ensina que os justos vão passar sete anos no céu enquanto a terra sofre. Mas procure na Bíblia: não existe nenhum versículo que diga isso. As bodas do Cordeiro são anunciadas em Apocalipse 19.7-9 e, no versículo seguinte, o céu se abre e o Rei desce com os seus exércitos (Ap 19.11). Não há sete anos entre uma coisa e outra.
E o destino dos redimidos, segundo a Bíblia, é a terra: “e reinarão sobre a terra” (Ap 5.10); “bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” (Mt 5.5). O justo não é tirado da terra. O ímpio é tirado; o justo é guardado no celeiro — e o celeiro fica no campo do Senhor.
Para conversar em grupo
- Leia Mateus 13.24-30 e 36-43. Segundo Yeshua, quem é recolhido primeiro?
- Em Mateus 24.39, quem o dilúvio “levou”? Como isso ajuda a entender o versículo 40?
- Qual o significado da resposta de Yeshua em Lucas 17.37?
- O que a experiência de Israel em Gósen ensina sobre o povo de D_us diante dos juízos finais?
Capítulo 10
Uma vinda que todo olho verá
“Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá.”Apocalipse 1.7
A palavra mais importante da expressão “arrebatamento secreto” é a palavra secreto. Não discordamos de que haverá um arrebatamento — a Bíblia fala claramente que os crentes vivos serão “arrebatados” para encontrar o Senhor (1Ts 4.17). A questão é: quando e como. Será um evento silencioso, que o mundo nem vai perceber, sete anos antes da vinda visível? Ou será parte da própria vinda gloriosa do Messias, à vista de todos?
O texto mais barulhento da Bíblia
O principal texto usado para defender o arrebatamento secreto é 1 Tessalonicenses 4.16-17. Mas leia com atenção:
Um brado de comando, a voz de um arcanjo e o toque do shofar de D_us. Se existe um texto na Bíblia que não descreve algo secreto, é este. Um irmão, certa vez, brincou: “É o arrebatamento mais barulhento da história — e dizem que ninguém vai ouvir!”
E o próprio Yeshua advertiu contra quem anunciasse uma vinda escondida: “Se vos disserem: ‘Eis que ele está no deserto’, não saiais; ‘Eis que ele está no interior da casa’, não acrediteis. Porque, assim como o relâmpago sai do oriente e se mostra até o ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem” (Mt 24.26-27). Um relâmpago que corta o céu de ponta a ponta não é segredo para ninguém.
Sobem para descer com o Rei
Paulo diz que seremos arrebatados “para o encontro do Senhor nos ares”. A palavra grega é apántesis, e ela tinha um sentido bem conhecido no mundo antigo. Quando um rei ou uma autoridade importante visitava uma cidade, os cidadãos mais ilustres saíam pela estrada para encontrá-lo — faziam a apántesis — e depois voltavam com ele, escoltando-o até a cidade.
A própria Bíblia usa a palavra assim. Quando Paulo chegou preso à Itália, os irmãos de Roma saíram “ao nosso encontro” até a Praça de Ápio, e ele seguiu com eles para a cidade (At 28.15). Na parábola das dez virgens, o grito é: “Eis o noivo! Saí ao seu encontro!” (Mt 25.6) — e elas entram com ele para a festa.
Os santos sobem ao encontro do Rei não para partir com Ele para longe da terra, mas para acompanhá-lo na sua descida. O profeta Zacarias viu isso: “o Eterno, meu D_us, virá, e todos os santos com ele”, e “naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das Oliveiras” (Zc 14.4-5).
O último shofar
Em 1 Coríntios 15.52, Paulo diz que a ressurreição e a transformação dos crentes acontecerão “num momento, num abrir e fechar de olhos, ao último shofar”. Se é o último, não pode haver outros depois dele. Mas, na teoria da semana separada, depois do arrebatamento viriam sete anos de juízos, incluindo as sete trombetas do Apocalipse. Então o shofar do arrebatamento não seria o último.
No Apocalipse, o sétimo e último shofar é tocado e vozes proclamam no céu: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Messias, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). É ali, no último shofar, que o Rei assume o reino. Para uma comunidade que celebra as festas bíblicas, isso tem um eco muito claro: Yom Teruá, o dia do toque do shofar, que anuncia a coroação do Rei.
O último dia
No capítulo 6 do Evangelho de João, Yeshua repete quatro vezes a mesma promessa: “eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39, 40, 44, 54). A ressurreição dos justos não acontece sete anos antes do último dia. Acontece no último dia. E, segundo Paulo, a ressurreição dos mortos e o arrebatamento dos vivos acontecem juntos (1Ts 4.16-17). Logo, o arrebatamento também é no último dia.
Depois da tribulação, não antes
Quando os discípulos perguntaram a Yeshua sobre o sinal da sua vinda, Ele descreveu tribulações, falsos profetas e perseguições. E depois disse: “Logo depois da tribulação daqueles dias… aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem… e ele enviará os seus anjos com grande som de shofar, e eles reunirão os seus escolhidos dos quatro ventos” (Mt 24.29-31). A reunião dos escolhidos vem depois da tribulação, com shofar, à vista de todas as tribos da terra.
Paulo diz o mesmo aos tessalonicenses, que estavam assustados com boatos de que o Dia do Senhor já tinha chegado: “No que diz respeito à vinda do nosso Senhor e à nossa reunião com ele… ninguém de modo algum vos engane, porque isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade” (2Ts 2.1-3). A nossa reunião com Ele vem depois da manifestação do homem da iniquidade — não antes. E, como veremos no capítulo 11, nossa congregação entende que esse homem da iniquidade não é um personagem que ainda vai aparecer: ele já se manifestou na história.
“Guardar da hora da provação”
Um texto muito usado para defender a retirada da Igreja é Apocalipse 3.10: “Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro.”
Mas o mesmo apóstolo João registrou a oração de Yeshua usando exatamente a mesma construção grega: “Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal” (Jo 17.15). Aqui fica claro que “guardar de” não significa “tirar de”. O próprio Yeshua coloca as duas coisas em oposição. Ser guardado é ser protegido no meio, como Israel em Gósen, e não ser removido do lugar.
A vinda do Senhor será visível, com brado, voz de arcanjo e shofar.
Os santos sobem ao encontro do Rei para descer com Ele.
Tudo acontece no último shofar e no último dia, depois da tribulação.
Ser “guardado da provação” é ser protegido no meio dela, não retirado.
Para conversar em grupo
- Releia 1 Tessalonicenses 4.16-17. O que nesse texto indica que a vinda do Senhor não será secreta?
- O que significava sair ao “encontro” (apántesis) de um rei? Como isso muda sua leitura do arrebatamento?
- Compare Apocalipse 3.10 com João 17.15. O que você conclui?
Capítulo 11
Anticristo, chips e códigos de barras
“Filhinhos, esta é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido.”1 João 2.18
Poucos assuntos causaram tanto medo nas igrejas quanto o Anticristo e o sinal da besta. Muitos irmãos se lembram de pregações garantindo que o código de barras escondia o número 666. Depois foi o cartão magnético, depois o chip implantado na mão, depois a biometria, depois as vacinas, depois o dinheiro digital. Livros foram vendidos, vídeos circularam, pessoas deixaram de usar serviços bancários por medo de “receber o sinal” sem perceber.
Neste capítulo, vamos separar o que a Bíblia diz do que foi acrescentado pela imaginação. E, no próximo, vamos mostrar o que nossa congregação entende ser o verdadeiro sinal da besta — que é algo muito mais sério, e muito mais bíblico, do que um chip.
O que a Bíblia diz sobre o Anticristo
A palavra “anticristo” aparece somente nas cartas de João. E, curiosamente, ele não fala de um único homem que surgiria só no fim, mas de algo que já estava presente no seu tempo: “agora muitos anticristos têm surgido” (1Jo 2.18). “Todo espírito que não confessa Yeshua… é o espírito do anticristo, do qual ouvistes que vem, e agora já está no mundo” (1Jo 4.3). O anticristo, para João, é antes de tudo um espírito, uma força de engano que nega o Messias e se opõe a Ele.
Paulo fala do “homem da iniquidade”, o “filho da perdição” (2Ts 2.3). E aqui aparece de novo a palavra que vimos no capítulo 9: em muitos manuscritos gregos, é o ánthropos tes anomías — o homem sem Torá, o homem da anarquia contra a Lei de D_us. Paulo acrescenta que “o mistério da iniquidade (anomía) já opera” (2Ts 2.7). Não era algo guardado para daqui a dois mil anos; já estava em ação nos dias dele e cresceria até se manifestar plenamente na história — o que, como veremos, de fato aconteceu.
E o profeta Daniel, séculos antes, descreveu um poder que se levantaria do quarto reino — Roma — e que faria algo muito específico:
Em aramaico, “os tempos e a lei” é זִמְנִין וְדָת — zimnín vedát. Os tempos marcados por D_us e a lei de D_us. Guarde essa expressão: ela será a chave do próximo capítulo. O grande sinal do poder anticristão, segundo Daniel, não é tecnológico. É religioso: mexer no calendário de D_us e na Torá de D_us.
Um poder que já se manifestou
Daniel diz ainda que esse poder dominaria sobre os santos “por um tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7.25). O Apocalipse usa a mesma medida com outras palavras: 1.260 dias e 42 meses (Ap 12.6, 14; 13.5). Na linguagem profética, em que um dia representa um ano (Nm 14.34; Ez 4.6), são 1.260 anos de domínio.
Por isso, nossa congregação não espera um Anticristo futuro. Cremos que o poder descrito por Daniel, por Paulo e pelo Apocalipse já se levantou, já se estabeleceu e já imprimiu o seu sinal. É a Roma religiosa, o império papal, nascido da união entre a Igreja e o Estado a partir de Constantino, que exerceu domínio sobre os santos durante esses 1.260 anos. Foi exatamente assim que os Reformadores leram essas profecias, como vimos no capítulo 8 — e foi para escapar dessa leitura que surgiu a ideia de um Anticristo ainda por vir.
A história desse poder — suas datas, seu domínio de 1.260 anos e a “ferida mortal” de Apocalipse 13.3 — merece um estudo próprio, que faremos em outra oportunidade. Aqui basta perceber a diferença: a teoria da semana separada manda o crente olhar para o futuro à procura de um homem; a leitura histórica manda olhar para o sistema que já mudou os tempos e a lei e perguntar se ainda estamos seguindo as suas marcas.
Não há acordo de sete anos com Israel em Daniel 9
Como vimos no capítulo 6, o famoso “acordo de sete anos do Anticristo com Israel” vem de uma leitura equivocada de Daniel 9.27. Quem confirma a aliança com muitos é o Messias, e Ele a confirmou com o seu sangue. Retire esse versículo e não sobra nenhum texto na Bíblia que fale de um tratado de paz de sete anos entre um Anticristo e Israel. Todo o cenário que ouvimos em tantas pregações está apoiado sobre uma única leitura errada de um único versículo.
E o templo reconstruído?
Paulo diz que o homem da iniquidade “se assentará no santuário de D_us, apresentando-se como se fosse D_us” (2Ts 2.4). Muitos concluem que um templo físico precisa ser reconstruído em Jerusalém. Mas repare como o próprio Paulo usa a palavra “santuário” (naós) nas suas cartas: “Não sabeis que vós sois o santuário de D_us?” (1Co 3.16); “nós somos o santuário do D_us vivo” (2Co 6.16); o povo de D_us “cresce para santuário santo no Senhor” (Ef 2.21).
Para Paulo, o santuário de D_us, depois da cruz, é a comunidade dos que creem. Um poder que se assenta no meio do povo de D_us, reivindicando a autoridade de D_us para mudar os tempos e a lei — isso se encaixa perfeitamente em Daniel 7.25, sem exigir a reconstrução de um prédio em Jerusalém. E é exatamente o que a história registrou: um poder que se assentou no meio da cristandade reivindicando para si a autoridade de D_us.
E o 666?
O Apocalipse diz: “Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis” (Ap 13.18). Ao longo da história, muitos fizeram cálculos com nomes. Um dos mais antigos observa que “Nero César”, escrito em letras hebraicas, soma 666 — e que alguns manuscritos antigos trazem 616, que é o valor da forma latina do mesmo nome. Isso mostra, ao menos, que os primeiros leitores entendiam o número como algo ligado ao poder de Roma.
Mas há também um sentido simbólico que qualquer leitor pode perceber. O ser humano foi criado no sexto dia. O sete é o número de D_us, do descanso, da obra completa — o Shabat. O seis é o número do homem que fica aquém de D_us, que trabalha sem descanso, que se coloca no lugar do Criador. Seiscentos e sessenta e seis é o seis multiplicado, o homem se exaltando ao máximo, construindo um sistema religioso sem o sétimo dia de D_us. Guarde isso também para o próximo capítulo.
E o código de barras?
A história de que o código de barras esconde o 666 surgiu porque os códigos de produtos têm três pares de barras mais longas — no começo, no meio e no fim — que servem apenas para orientar o leitor óptico. Essas barras se parecem com o desenho que representa o número 6 numa parte do código, e alguém concluiu que todo código de barras “escondia” um 666. Mas essas barras-guia não são números e não são lidas como números. É apenas uma coincidência visual.
O mesmo vale para o chip, para o cartão ou para qualquer tecnologia. A tecnologia, em si, não é boa nem má. O que a Bíblia descreve no Apocalipse é algo muito mais profundo do que um objeto implantado no corpo.
Leia com atenção Apocalipse 13.15-16 e 14.9-11. Em todos esses textos, o sinal da besta aparece ligado à adoração: “os que não adorassem a imagem da besta”; “se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe o sinal”.
O sinal da besta é uma questão de adoração e lealdade, e não de tecnologia. Ninguém recebe o sinal da besta sem saber, por acidente, ao pagar uma conta. Recebe quem escolhe a quem vai obedecer e adorar.
Para conversar em grupo
- Você já sentiu medo de “receber o sinal” por causa de alguma tecnologia? O que pensa disso agora?
- Segundo 1 João 2.18 e 4.3, o anticristo é uma pessoa que ainda vai aparecer? O que ele é?
- O que Daniel 7.25 diz que o poder anticristão faria? Por que isso é importante?
Capítulo 12
Dois sinais: o selo de D_us e o sinal da besta
“Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de D_us e a fé de Yeshua.”Apocalipse 14.12
Se o sinal da besta não é um chip, o que é? Para responder, precisamos fazer uma pergunta que quase nunca é feita nas pregações sobre o tema: o sinal da besta é o oposto de quê? O Apocalipse apresenta dois grupos no fim dos tempos. Um recebe o sinal da besta “na mão direita ou na testa” (Ap 13.16). O outro recebe o selo de D_us “na testa” (Ap 7.3) e tem “o nome do Pai escrito na testa” (Ap 14.1). Se entendermos qual é o selo de D_us, entenderemos, por contraste, qual é o sinal da besta.
Na mão e na testa: uma linguagem da Torá
A expressão “na mão e na testa” não foi inventada pelo Apocalipse. Ela vem diretamente da Torá. Logo depois do Shemá — “Ouve, Israel, o Eterno nosso D_us, o Eterno é Um” —, Moisés diz:
Até hoje, os judeus religiosos cumprem esse mandamento com os tefilin, pequenas caixas com trechos da Torá amarradas no braço e na testa durante a oração. Mas o sentido mais profundo é claro: a mão representa o que fazemos, as nossas ações; a testa, o que pensamos e em que cremos. Ter a Palavra de D_us na mão e na testa é deixar que a Torá governe a nossa conduta e a nossa mente.
Então, quando o Apocalipse fala de um sinal da besta “na mão ou na testa”, qualquer leitor que conhece a Torá percebe imediatamente: é uma imitação invertida do sinal de D_us. Em vez da Torá de D_us governando as ações e os pensamentos, um sistema humano ocupa o lugar dela.
O sinal que D_us mesmo escolheu
Existe um mandamento que a própria Torá chama, com todas as letras, de sinal entre D_us e o seu povo:
A palavra hebraica é אוֹת — ot, sinal. O profeta Ezequiel repete: “Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o Eterno que os santifica” (Ez 20.12, 20). O Shabat é o sinal de que pertencemos ao Criador. Ele traz o nome de D_us, o seu título — Criador dos céus e da terra — e o seu domínio sobre o tempo.
E o profeta Isaías acrescenta: “Sela a Torá entre os meus discípulos” (Is 8.16). O selo de D_us está ligado à sua Torá guardada no coração do seu povo.
Agora releia a descrição do povo fiel no fim dos tempos, logo depois do aviso contra o sinal da besta: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de D_us e a fé de Yeshua” (Ap 14.12). E também: o dragão fez guerra contra “os que guardam os mandamentos de D_us e têm o testemunho de Yeshua” (Ap 12.17). O povo selado é o povo que une as duas coisas: Torá e Yeshua, mandamentos e fé.

Figura 7 — Dois sinais em oposição: a Torá de D_us e as substituições humanas.
Mudar os tempos e a lei
Agora volte a Daniel 7.25. O poder que se levantaria do Império Romano “cuidaria em mudar os tempos e a lei”. Se o sinal de D_us está ligado ao seu tempo santo (o Shabat, as festas) e à sua lei (a Torá), o sinal da besta estará ligado à substituição desses tempos e dessa lei por tempos e leis humanos. E foi exatamente isso que a história registrou.
O domingo
No dia 7 de março do ano 321, o imperador romano Constantino publicou uma lei determinando que, “no venerável dia do Sol”, os juízes, os moradores das cidades e os artesãos descansassem. Pela primeira vez, o descanso semanal passava a ser imposto por lei do Estado, e no primeiro dia da semana, dedicado ao Sol pelos romanos.
Poucas décadas depois, por volta de 363, o Concílio de Laodiceia determinou, no seu cânon 29, que os cristãos não deveriam “judaizar” descansando no sábado, mas trabalhar nesse dia e honrar o dia do Senhor. O Shabat, que D_us chamou de sinal perpétuo, passou a ser tratado como algo proibido para os cristãos.
Nenhum versículo da Bíblia transfere o descanso do sétimo para o primeiro dia. Yeshua guardou o Shabat (Lc 4.16) e disse que é “Senhor do Shabat” (Mc 2.28). Paulo ia às sinagogas “segundo o seu costume” no Shabat (At 17.2). A mudança veio de concílios e imperadores — exatamente como Daniel disse que aconteceria.
O Natal, a Páscoa e as festas substitutas
D_us deu ao seu povo um calendário de festas: Pessach, Pães Asmos, Primícias, Shavuot, Yom Teruá, Yom Kipur e Sucot (Lv 23). Ele as chama de “as minhas festas” (Lv 23.2). Cada uma delas aponta para a obra do Messias.
Com o tempo, esse calendário foi substituído. A celebração do nascimento do Messias em 25 de dezembro aparece pela primeira vez em Roma no século IV. Muitos historiadores a relacionam às festas romanas do solstício de inverno, como o “nascimento do Sol Invicto”, embora os estudiosos debatam quanto dessa ligação é direta. O fato certo é que a data não vem da Bíblia e que suas tradições populares vieram, em grande parte, de costumes pagãos.
Com a Páscoa aconteceu algo parecido. No Concílio de Niceia, em 325, decidiu-se que a data da celebração cristã não seria mais calculada segundo o calendário judaico de Pessach. O historiador Eusébio registrou a carta de Constantino às igrejas, em que o imperador dizia que os cristãos não deveriam ter nada em comum com os judeus. O Pessach bíblico, que Yeshua celebrou e mandou fazer em memória dele, foi trocado por uma festa definida por decisão imperial.
A Trindade
Nossa congregação também entende que pertence a esse sistema a doutrina da Trindade, tal como foi definida nos concílios convocados pelos imperadores romanos — em Niceia (325) e em Constantinopla (381) — e imposta como religião oficial do Império pelo Édito de Tessalônica, em 380, sob pena de punição a quem pensasse diferente.
Essa fórmula foi redigida com palavras da filosofia grega — “substância”, “pessoas”, “hipóstases” — que não aparecem na Escritura, e foi imposta pela força do Estado. A fé de Israel, que o próprio Yeshua confirmou, é a confissão do Shemá: “Ouve, Israel, o Eterno nosso D_us, o Eterno é Um” (Dt 6.4). Quando um escriba perguntou qual era o primeiro de todos os mandamentos, Yeshua respondeu citando exatamente essas palavras (Mc 12.29). É essa confissão que queremos ter “na mão e na testa”, em lugar das definições de concílios imperiais.
| O que D_us estabeleceu | O que o sistema colocou no lugar |
|---|---|
| O Shabat, sétimo dia, sinal perpétuo (Êx 31.13) | O “dia do Sol”, imposto por lei (321) e o Shabat proibido (Laodiceia) |
| As festas do Eterno (Lv 23) | Natal e datas sem base bíblica |
| Pessach, no tempo marcado (Lv 23.5) | Data da Páscoa separada do calendário bíblico (Niceia, 325) |
| O Shemá: “o Eterno é Um” (Dt 6.4; Mc 12.29) | Credos definidos por concílios imperiais |
| A Torá na mão e na testa (Dt 6.8) | Tradições e leis humanas no lugar dos mandamentos (Mc 7.8-9) |
Uma palavra pastoral
Alguém pode perguntar: “Então todos os que guardam o domingo já têm o sinal da besta?” Precisamos responder com o mesmo cuidado com que D_us trata o seu povo. O Apocalipse traz um chamado que mostra onde está grande parte do povo de D_us no fim dos tempos: “Saí dela, povo meu, para que não sejais cúmplices dos seus pecados” (Ap 18.4). Se D_us chama de “povo meu” pessoas que ainda estão dentro de Babilônia, é porque Ele conhece os sinceros que ali estão sem saber.
Paulo disse aos atenienses que D_us “não levou em conta os tempos da ignorância”, mas agora “notifica a todos os homens que se arrependam” (At 17.30). Milhões de irmãos sinceros guardam o domingo e celebram o Natal porque foi isso que aprenderam, amando a D_us de todo o coração. O sinal da besta, como vimos, está ligado à adoração e à escolha. Ele se torna decisivo quando a luz chega e a pessoa, sabendo o que D_us pede, escolhe o sistema humano no lugar do mandamento de D_us.
Por isso nossa atitude não é de condenação, mas de convite. Não apontamos o dedo para os irmãos; estendemos a mão. Anunciamos, com amor, o que o anjo do Apocalipse anuncia: “Temei a D_us e dai-lhe glória… e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar” (Ap 14.7) — palavras que ecoam o próprio mandamento do Shabat (Êx 20.11).
“Na mão e na testa” é linguagem da Torá (Dt 6.8): ações e pensamentos governados pela Palavra de D_us.
O Shabat é o sinal que D_us escolheu entre Ele e o seu povo (Êx 31.13; Ez 20.12).
O sinal da besta é o sinal invertido: tempos e leis humanos no lugar dos tempos e da lei de D_us (Dn 7.25).
O povo selado guarda os mandamentos de D_us e a fé de Yeshua (Ap 14.12).
Nosso chamado aos irmãos é de amor: “Saí dela, povo meu” (Ap 18.4).
Para conversar em grupo
- Por que a expressão “na mão e na testa” nos leva de volta a Deuteronômio 6?
- Leia Êxodo 31.13-17. Por que o Shabat é chamado de “sinal”?
- Como Daniel 7.25 ajuda a entender a mudança do sábado para o domingo e das festas bíblicas para outras datas?
- Como podemos compartilhar essas verdades com amor, sem condenar os irmãos sinceros?
Capítulo 13
Yom Kipur e a porta que continua aberta
“O Senhor não retarda a sua promessa… mas é paciente convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.”2 Pedro 3.9
Se as setenta semanas terminaram no ano 34, alguém poderia pensar: “Então o tempo da graça acabou ali?” Muito pelo contrário. Quando a última semana terminou, a porta se abriu ainda mais. O Evangelho, que até então era pregado principalmente em Israel, saiu para Samaria, para a Síria, para a Ásia Menor, para a Grécia, para Roma — e, dois mil anos depois, chegou até nós, aqui no sul do Brasil.
É aqui que vemos o maior erro da teoria da semana separada. Darby chamou o tempo da Igreja de “parêntese”, como se fosse uma interrupção no plano de D_us, algo que os profetas nem tinham previsto. Mas o chamado das nações não é parêntese nenhum! É o cumprimento da promessa mais antiga feita a Abraão: “Em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). É o que Isaías anunciou: “Pouco é que sejas o meu servo para restaurar as tribos de Jacó… também te dei como luz para as nações, para seres a minha salvação até a extremidade da terra” (Is 49.6).
Uma só oliveira
O dispensacionalismo ensina que D_us tem dois povos separados: Israel, com promessas terrenas, e a Igreja, com promessas celestiais. Por isso precisa tirar a Igreja da terra para poder “voltar a tratar com Israel”. Mas Paulo ensina outra coisa. Ele compara o povo de D_us a uma única oliveira. Alguns ramos naturais (israelitas) foram quebrados por incredulidade; ramos de oliveira brava (gentios) foram enxertados no meio deles e passaram a participar “da raiz e da seiva da oliveira” (Rm 11.17). E os ramos naturais podem ser enxertados de novo (Rm 11.23-24).
Não são duas árvores. É uma só. Os gentios que creem não formam um povo à parte: eles são trazidos para dentro da “comunidade de Israel”, deixam de ser “estrangeiros quanto às alianças da promessa” e se tornam “concidadãos dos santos e membros da família de D_us” (Ef 2.12-19). Por isso nossa congregação, formada por judeus e não judeus, vive segundo a Torá: porque fomos enxertados na oliveira de Israel, e a seiva dessa oliveira é a Palavra de D_us.
Isso não é a chamada “teologia da substituição”, que ensina que a Igreja tomou o lugar de Israel e que D_us rejeitou o povo judeu. Nós rejeitamos essa ideia. D_us não rejeitou o seu povo (Rm 11.1-2) e “todo Israel será salvo” (Rm 11.26). O que afirmamos é que judeus e gentios que creem formam um só povo na mesma oliveira, e que a restauração de Israel acontece pela mesma aliança confirmada por Yeshua — e não por um novo templo com sacrifícios de animais.
O sistema sacrificial cumprido, o arrependimento de cada dia
Cremos que em Yeshua se cumpriu o sistema sacrificial. Ele entrou no Santo dos Santos celestial “não com sangue de bodes e bezerros, mas com o seu próprio sangue, uma vez por todas” (Hb 9.12), e hoje “vive sempre para interceder” por nós (Hb 7.25). Nenhum sacrifício de animal pode acrescentar nada a isso.
Mas isso não nos dispensa do arrependimento. Pelo contrário: porque temos um Sumo Sacerdote que intercede, podemos nos aproximar com confiança todos os dias. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar” (1Jo 1.9). Yeshua nos ensinou a pedir perdão diariamente: “perdoa as nossas dívidas” está na oração de cada dia (Mt 6.11-12). A teshuvá, o voltar-se para D_us, é o respirar da vida de fé.
E Yom Kipur continua sendo, para nós, o que a Torá diz que ele é: “estatuto perpétuo” (Lv 16.29-31; 23.31). Os apóstolos continuaram a reconhecer esse dia, que Lucas chama simplesmente de “o Jejum” (At 27.9). Nele nos humilhamos, jejuamos, confessamos com o vidui — como Daniel fez — e lembramos com temor e gratidão que o nosso Sumo Sacerdote entrou no Santo dos Santos por nós.
O próprio Talmud guarda um testemunho impressionante sobre isso. No tratado Yoma (39b), os sábios registram que, cerca de quarenta anos antes da destruição do Templo — ou seja, na mesma geração em que o Messias foi oferecido —, sinais estranhos passaram a acontecer em Yom Kipur. A sorte “para o Eterno” deixou de sair na mão direita do sumo sacerdote. A lâmpada ocidental da menorá deixou de arder. As portas do santuário se abriam sozinhas.
E havia um sinal que todo o povo esperava. Um fio de lã carmesim era ligado ao bode enviado a Azazel. Quando esse fio ficava branco, todos entendiam que D_us tinha aceitado a expiação, como diz Isaías: “ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, ficarão brancos como a neve” (Is 1.18). O Talmud conta que, nesses últimos anos do Templo, o fio nunca mais embranqueceu (Yoma 39b; Rosh Hashaná 31b).
Os sábios não mencionam Yeshua, e não afirmamos que o tenham feito. Mas o seu registro, vindo de quem não cria nele, confirma o que a carta aos Hebreus ensina: depois do sacrifício do Messias, o sangue de bodes e novilhos já não tinha efeito para o perdão dos pecados. “Onde há remissão destes, já não há oferta pelo pecado” (Hb 10.18). O véu tinha se rasgado; o fio já não embranquecia.
O que permanece em Yom Kipur é aquilo que nunca dependeu do altar: o jejum, a aflição da alma que a Torá ordena (Lv 23.27-32), e a confissão sincera, o vidui, como a de Daniel. Esses continuam necessários. E é por meio de Yeshua, o nosso Sumo Sacerdote, que o Eterno recebe o nosso jejum e a nossa confissão e nos perdoa (1Jo 1.9; Hb 4.14-16). O fio carmesim do Templo deixou de mudar de cor; o sangue do Cordeiro continua tornando brancos como a neve os que se voltam para D_us (Ap 7.14).
A porta de Neilá
Na tradição judaica, o momento final de Yom Kipur se chama Neilá, que quer dizer “fechamento”. É a oração em que se diz que os portões do céu estão se fechando, e o toque final do shofar encerra o dia. É um momento de grande temor e esperança.
Nossa comunidade vive esse momento com reverência. Mas entendemos, à luz de Yeshua, que a porta do perdão não se fecha a cada ano ao pôr do sol de Yom Kipur. O nosso Sumo Sacerdote a mantém aberta enquanto durar o tempo em que D_us está chamando as nações. Paulo diz que um endurecimento parcial veio sobre Israel “até que haja entrado a plenitude dos gentios” (Rm 11.25). E Yeshua disse que Jerusalém seria pisada pelos gentios “até que os tempos dos gentios se completem” (Lc 21.24).
Existe, sim, um dia em que a porta se fechará. Yeshua o descreveu na parábola das dez virgens: quando o noivo chegou, “as que estavam preparadas entraram com ele para as bodas, e fechou-se a porta” (Mt 25.10). A grande Neilá da história não é um arrebatamento secreto que deixaria uma segunda chance de sete anos para quem ficasse. É a vinda visível do Noivo, ao som do último shofar. Até lá, a porta está aberta. Depois, estará fechada: “quem é injusto, faça injustiça ainda… e quem é santo, seja santificado ainda” (Ap 22.11).
| Festa de outono | O que ela anuncia |
|---|---|
| Yom Teruá (Dia do Shofar) | O último shofar: a ressurreição dos justos e a proclamação do Rei (1Co 15.52; Ap 11.15). |
| Dias Temíveis | O tempo de teshuvá, enquanto a porta está aberta (Rm 11.25; 2Pe 3.9). |
| Yom Kipur | O Sumo Sacerdote “aparecerá segunda vez… para salvação” (Hb 9.28); Israel olhará para aquele a quem traspassaram (Zc 12.10). |
| Sucot (Tabernáculos) | D_us habitando com o seu povo na terra renovada (Zc 14.16; Ap 21.3). |
A teoria da semana separada, sem perceber, ensina uma “segunda chance”: quem ficar depois do arrebatamento ainda poderia se converter durante os sete anos. A Bíblia não ensina isso. Quando o Noivo chega, a porta se fecha.
Por isso a mensagem é urgente: hoje é o dia da salvação (2Co 6.2). A porta está aberta agora.
Para conversar em grupo
- Por que o chamado das nações não pode ser chamado de “parêntese” no plano de D_us?
- Qual a diferença entre a imagem da “única oliveira” e a ideia de dois povos separados?
- Como você entende a relação entre a obra completa de Yeshua e o arrependimento diário?
- Segundo Mateus 25.10, quando a porta se fecha? Que urgência isso traz para nós?
Capítulo 14
Vigiar sem medo
“Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa redenção se aproxima.”Lucas 21.28
Chegamos ao fim da nossa caminhada. Começamos com Daniel, um homem idoso na Babilônia, lendo o rolo de Jeremias e se humilhando diante de D_us. Terminamos diante de um Messias que cumpriu cada detalhe do calendário que o anjo entregou ao profeta.
Vimos que as setenta semanas são um único bloco de 490 anos, recortado da história. Que o relógio começou com o decreto de Artaxerxes, em 457 a.C., e marcou com precisão o ano em que o Messias seria ungido: 27 d.C. Que os seis objetivos da profecia — o fim da transgressão, o fim do pecado, a expiação, a justiça eterna, o selo da profecia e a unção do Santo dos Santos — se cumpriram em Yeshua.
Vimos que quem confirma a aliança com muitos é o Messias, com o seu próprio sangue, e que foi Ele quem fez cessar os sacrifícios, no meio da semana, quando o véu se rasgou. Que Ele esteve três dias e três noites no coração da terra, como prometeu, da quarta-feira ao fim do Shabat. Que a teoria da semana separada, com seu Anticristo fazendo acordo com Israel, depende de uma leitura equivocada de um único versículo e só se organizou como sistema no século XIX.
Vimos que, nas palavras de Yeshua, quem é tirado na colheita é o joio, e quem permanece é o trigo. Que a vinda do Senhor será visível, ao último shofar, no último dia. Que o Anticristo não é um personagem que ainda vai aparecer, mas um poder que já se manifestou na história. Que o verdadeiro sinal da besta não é um chip, mas a substituição dos tempos e da lei de D_us por tradições humanas, e que o selo de D_us está sobre os que guardam os seus mandamentos e a fé de Yeshua. E que a porta da graça continua aberta até que o Noivo chegue.
Uma esperança mais firme
Talvez você esteja pensando: “Mas se não vai haver um arrebatamento secreto, se a Igreja não vai escapar antes das dificuldades, isso não é uma mensagem de medo?” Não. É exatamente o contrário.
A teoria do arrebatamento secreto, sem querer, produziu muito medo. Crianças com pavor de ficar para trás. Crentes com medo de código de barras, de chip, de vacina. Pessoas aflitas a cada notícia do Oriente Médio. Uma fé movida pelo susto.
A esperança bíblica é outra. Não dependemos de escapar antes. Dependemos do D_us que guardou Noé na arca, Israel em Gósen, Daniel na cova dos leões e os três jovens na fornalha. O fogo não foi apagado para eles; D_us entrou no fogo com eles (Dn 3.25). Essa é a nossa esperança: não a ausência de provação, mas a presença do Senhor no meio dela, e a certeza de que, no fim, o joio será retirado e os justos resplandecerão como o sol.
Como vigiar
Yeshua mandou vigiar. Mas vigiar não é ficar olhando o jornal procurando o Anticristo. Vigiar, segundo as parábolas de Mateus 24 e 25, é ser o servo fiel que cuida da casa enquanto o Senhor não chega (Mt 24.45-46); é ter azeite na lâmpada (Mt 25.1-13); é fazer render os talentos (Mt 25.14-30); é dar de comer ao faminto e visitar o preso (Mt 25.31-46).
Para nós, vigiar é também guardar o sinal que D_us nos deu: separar o Shabat, celebrar as festas do Eterno, ter a Torá na mão e na testa, fazer teshuvá a cada dia, jejuar e confessar em Yom Kipur, e anunciar às nações — com amor, sem arrogância — que o tempo está cumprido e que a porta ainda está aberta.
Se você chegou até aqui vindo de uma tradição diferente, nossa oração é que este livro tenha sido um convite, e não um ataque. Não queremos que você abandone o amor que tem pelo Senhor, o zelo pela sua vinda, a oração, o fervor. Queremos apenas que você confira nas Escrituras, como os bereanos, e siga a verdade até onde ela levar.
מָרַנָא תָא
Maranata — vem, Senhor!
Ken yehi ratson — que assim seja a Tua vontade.
Apêndice A
Perguntas que você talvez esteja fazendo
A palavra “arrebatamento” não está na Bíblia? Então vocês não creem no arrebatamento?
Cremos, sim. Em 1 Tessalonicenses 4.17, o verbo grego harpázo significa “arrebatar, levar de repente”. Os crentes vivos serão transformados e arrebatados para encontrar o Senhor. O que não encontramos na Bíblia é um arrebatamento secreto, sete anos antes da vinda visível. O arrebatamento faz parte da própria vinda gloriosa do Messias, ao último shofar.
E 1 Tessalonicenses 5.9, que diz que não fomos destinados para a ira?
É verdade: o povo de D_us não está destinado à ira de D_us. Mas ser protegido da ira não é o mesmo que ser retirado da terra. Israel não sofreu as pragas do Egito, mas estava no Egito enquanto elas caíam. Além disso, a Bíblia distingue a ira de D_us contra os ímpios da perseguição que os fiéis sofrem por causa da fé — e esta Yeshua nunca prometeu que evitaríamos (Jo 16.33; At 14.22).
Mas Mateus 24.15 fala da abominação da desolação ainda no futuro, não?
No paralelo de Lucas, o mesmo ensino aparece assim: “quando virdes Jerusalém cercada de exércitos” (Lc 21.20). E Yeshua disse que “esta geração” não passaria sem que aquilo acontecesse (Mt 24.34). Os discípulos que ouviram viram Jerusalém cercada pelos romanos em 70 d.C. Os cristãos de Jerusalém, lembrando a advertência, fugiram para as montanhas, como o historiador Eusébio registrou.
Romanos 11.26 não prova que Israel ainda precisa de uma semana só para ele?
Paulo diz que “todo Israel será salvo” e explica como: “virá de Sião o Libertador… e esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados” (Rm 11.26-27). É a mesma nova aliança confirmada por Yeshua. A restauração de Israel acontece pelo Messias e pela sua aliança, e não por uma semana de sete anos com templo e sacrifícios.
Se Yeshua morreu na quarta, por que as igrejas dizem sexta-feira?
Porque, ao perderem o contato com as festas bíblicas, deixaram de perceber que o “grande sábado” de João 19.31 era o shabat da festa, e não o sábado semanal. Quando se lê o texto com a Torá em mãos, os dois sábados aparecem com clareza, e o sinal de Jonas se cumpre ao pé da letra.
Vocês estão dizendo que quem vai ao culto no domingo está perdido?
Não. Como explicamos no capítulo 12, D_us chama de “meu povo” pessoas que ainda estão dentro de Babilônia (Ap 18.4). A salvação é pela graça, por meio da fé em Yeshua. O que dizemos é que D_us está chamando o seu povo de volta aos seus tempos e à sua Torá, e que essa escolha se torna decisiva quando a luz chega.
E se eu continuar em dúvida?
Continue estudando. Leia cada texto citado neste livro na sua própria Bíblia. Converse com a nossa congregação. Ore pedindo entendimento, como Daniel orou. D_us honra quem busca a verdade com sinceridade.
Apêndice B
Quadro-resumo
| Tema | O que aprendemos nas pregações | O que a Bíblia mostra |
|---|---|---|
| As 70 semanas | 69 cumpridas; a última adiada | Todas cumpridas, sem interrupção (457 a.C.–34 d.C.) |
| Quem confirma a aliança (Dn 9.27) | O Anticristo | O Messias, com o seu sangue |
| O Anticristo | Um homem que ainda vai aparecer | Um poder que já se manifestou na história (Dn 7.25) |
| Fim dos sacrifícios | Num templo futuro | Na cruz: o véu se rasgou |
| Morte e ressurreição | Sexta a domingo | Quarta ao fim do Shabat: 3 dias e 3 noites |
| Israel e Igreja | Dois povos separados | Uma só oliveira |
| Arrebatamento | Secreto, sete anos antes | Visível, ao último shofar, no último dia |
| Quem é tirado | Os crentes, para o céu | Os ímpios; os justos permanecem |
| Sete anos no céu | Durante a tribulação | Nenhum texto ensina isso |
| Sinal da besta | Chip, código de barras | Adoração; tempos e lei mudados (Dn 7.25) |
| Selo de D_us | Pouco mencionado | Shabat e mandamentos (Êx 31.13; Ap 14.12) |
| A porta da graça | Segunda chance em 7 anos | Aberta até a plenitude dos gentios; fecha-se na vinda do Noivo |
Apêndice C
Pequeno glossário
Anomía — Palavra grega para “iniquidade”; literalmente, viver sem a Lei (Torá).
Apántesis — Grego: sair ao encontro de um rei para escoltá-lo de volta à cidade.
Brit Hadashá — “Nova Aliança”; nome hebraico do Novo Testamento.
D_us — Forma com que escrevemos a palavra, por reverência ao Nome.
Dispensacionalismo — Sistema de interpretação organizado por J. N. Darby no século XIX, que separa Israel e Igreja e adia a 70ª semana.
Kapóret — A tampa da arca da aliança, onde o sangue era aspergido em Yom Kipur.
Mashiach — “Ungido”; Messias. Em grego, Christós.
Neilá — “Fechamento”; oração final de Yom Kipur.
Nisan — Primeiro mês do calendário bíblico, em que cai Pessach.
Pessach — A Páscoa bíblica, que celebra a libertação do Egito e aponta para o Cordeiro.
Shabat — O sétimo dia, do pôr do sol de sexta ao pôr do sol de sábado; sinal entre D_us e o seu povo.
Shavúa / shavuím — Conjunto de sete, “semana”; em Daniel 9, semanas de anos.
Shemá — “Ouve”; a confissão de Dt 6.4: “Ouve, Israel, o Eterno nosso D_us, o Eterno é Um.”
Shofar — Trombeta feita de chifre de carneiro.
Tanakh — A Bíblia hebraica: Torá, Profetas e Escritos.
Teshuvá — Arrependimento; literalmente, “voltar” para D_us.
Torá — A instrução de D_us, especialmente os cinco livros de Moisés.
Vidui — Confissão de pecados, recitada especialmente em Yom Kipur.
Yeshua — Nome hebraico do Messias, que significa “salvação”.
Yom Kipur — O Dia da Expiação (Lv 16; 23.26-32).
Yom Teruá — O Dia do toque do Shofar (Lv 23.24).